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Sergio e Artur Timerman: 'Na luta contra a síndrome congênita da zika'

Consultor de Medicina e Ciências da Saúde e Infectologista

9 JAN 2018 Por 01h:00

O Brasil enfrentou em 2015 um problema grave de saúde pública, cujas consequências estão presentes até hoje: o surto do zika vírus, em especial na Região Nordeste do País. Antes dessa epidemia, os hospitais das grandes cidades nordestinas reportavam um a dois casos de microcefalia por ano; em Pernambuco, no pico da crise, foram registrados entre 5 e 10 casos por dia. Apenas neste estado, foram notificados 2.375 casos de crianças nascidas com esta condição especial.

Além da microcefalia, a síndrome congênita da zika abrange outras manifestações, como deficit auditivo e ocular, síndrome convulsiva, retardo do desenvolvimento neuropsicomotor, artrogripose e redução do tônus muscular. A expectativa de vida é severamente comprometida: entre 35% e 40% das crianças não chegam a completar o primeiro ano de vida.

Atualmente, há levantamentos a respeito do diagnóstico sorológico, com pesquisas de anticorpos específicos para o vírus zika (ZKV), ainda não disponível. Também há estudos sobre terapêutica antivirótica: drogas que atuam contra o vírus C da hepatite têm demonstrado in vitro atividade diante do ZKV, aguardando-se análises clínicas que corroborem a possibilidade do emprego em mulheres grávidas. 

Sobre o uso de anticorpos específicos contra ZKV, há um estudo pré-clínico evidenciando a eficácia da administração desses anticorpos na redução da carga virótica do ZKV, também com potencial aplicabilidade em gestantes, de modo a reduzir a chance de transmissão materno-fetal. No caso da vacina, estudo publicado evidenciou indução de imunidade protetora diante de infecção pelo ZKV.

Enquanto os pesquisadores trabalham, é importante que a abordagem terapêutica da criança acometida pela síndrome congênita da zika seja sempre multiprofissional, envolvendo médicos, enfermagem, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, odontólogos, fisiatras, farmacêuticos e assistentes sociais. Quanto mais imediata essa atenção, menor será o impacto das sequelas.

Um bom exemplo está sendo realizado por professores e estudantes da UniFG no projeto “Quero Bem”, em Jaboatão dos Guararapes (PE). Criado no âmbito da FG Comunidade, clínica escola do centro universitário, o programa oferece tratamentos de fisioterapia, nutrição e psicologia para crianças com microcefalia, bem como acolhimento psicológico e atendimento jurídico às famílias. 

O projeto chama atenção a ponto de conquistar o prêmio Here for Good Award 2017, promovido pela rede internacional de Ensino Superior Laureate, da qual a UniFG faz parte.

Até o momento, foram acompanhadas 50 famílias e os resultados mostram que é preciso seguir adiante: os bebês chegavam com rigidez muscular, ausência de expressão e de linguagem, inclusive comprometimentos biológicos, como deficiências visuais e dificuldades respiratórias.

Com o tratamento, desenvolveram a motricidade, diminuíram a rigidez muscular e passaram a apresentar uma linguagem própria e um rosto cheio de expressão. 

É preciso disseminar ações como esta, pois a luta não acabou: cada pequena conquista das crianças é comemorada como uma vitória pelas famílias. Mais do que os cuidados paliativos, projetos como o “Quero Bem” mostram que a medicina deve andar de mãos dadas com a solidariedade e o desenvolvimento social.

*Sergio Timerman - Consultor de Medicina e Ciências da Saúde e Artur Timerman - Infectologista.

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