pesquisador analisa comportamento

Convivência com pessoas difíceis
torna rotina cheia de conflitos

Mundo 'infantilizado' é tema de estudo e já há cursos para aprender a superar problemas

22 JAN 2017 Por RODOLFO CÉSAR 12h:00
Pesquisdor Edilson Reis, que estuda a relação das pessoas Pesquisdor Edilson Reis, que estuda a relação das pessoas

Conviver com pessoas difíceis no dia a dia é algo comum para você? Com certeza deve ser fácil encontrar essas situações porque um número considerável de adultos na atual sociedade é caracterizado como sendo infantil. Para os adolescentes, essa condição tem sido identificada porque esse grupo está cada vez mais imaturo e agindo por impulsos.

Mas quando o problema não está nas outras pessoas necessariamente, mas em você? Fica mais fácil ou mais difícil lidar com essa condição?

José do Carmo da Silva, reverendo na Igreja Metodista do Brasil há 14 anos, atua diretamente no trabalho de aconselhamento. Mesmo assim, já teve momentos que chegou a quase brigar por ver algo que não estava de acordo. "Ao pensar sobre uma pessoa difícil, fui entender que em algumas situações essa pessoa sou eu!"

Ele relatou que recentemente havia locado uma caçamba e colocado ao lado do templo para poder retirar objetos do local. Pouco tempo depois, mesmo sem ter terminado a limpeza, a caçamba estava superlotada. 

"Colocaram nela desde vaso sanitário até um armário de cozinha. Sabia quem tinha feito aquele ato que me faria pagar duas caçambas, pensando nisso, no prejuízo, no abuso, eu fui em direção a casa da pessoa, contudo, no caminho me lembrei sobre tolerância, cordialidade, e então, voltei para casa e não fui tirar satisfação com o vizinho. Me senti profundamente em paz", relata.

A médica e militar Rosane Silveira Pinto convive em ambiente estressante e entendeu que os problemas para gerar estresse estavam, algumas vezes, em posturas que ela adotava. Ela atua no sistema público de saúde do SUS, pela Prefeitura de Campo Grande, e a demanda pelo atendimento é sempre alta, além de não haver funcionamento pleno de todo o sistema, gerando muitas vezes a demora para uma consulta.

A médica e militar Rosane Pinto, que realiza exercícios diários para ter rotinas menos estressantes. Foto: Arquivo pessoal

"Muitas vezes, nós mesmo somos as pessoas difíceis. Algo comum no meu dia a dia é a espera dos pacientes e eles são muito impacientes, muitas vezes. Isso é natural. As pessoas não gostam de ser atendidas com atrasos. Mas infelizmente isso acontece porque preciso ver um outro paciente internado, avaliar alguém que esteja na emergência", explica.

Diante de situações complicadas, Rosane diz que sempre há caminhos para melhorar na relação interpessoal. Ela cita até um exemplo do que a fez pensar sobre isso. "Estava atendendo e passei um paciente na frente e a pessoa seguinte reclamou. Mesmo sentindo mal com a situação, procurei ver pelo lado dela e a atendi com muita atenção e delicadeza. Expliquei a situação e continuei a consulta. Mas confesso que internamente não estava tranquila."

LACUNA NA SOCIEDADE

Os problemas de convivência e os extremos que isso vem causando é objeto de estudo na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) pelo teólogo capitão capelão do Corpo de Bombeiros e pós-graduando em saúde mental Edilson dos Reis.

O professor e pesquisador criou no Hospital Universitário, em Campo Grande, um laboratório de estudo e pesquisa sobre o luto e também promove cursos sobre aprendizagem no relacionamento interpessoal. O último foi realizado no final do ano passado. Tanto Rosane como José do Carmo participaram.

"As pessoas estão mais intolerantes. Isso acontece no ambiente familiar, no de trabalho. Elas estão com muita dificuldade em lidar com o 'não' e com o limite. E isso cria uma lacuna na sociedade que é o do 'eu errei, desculpe'. De assumir responsabilidades", explica.

Ele aponta que a incapacidade de tentar entender os outros exacerba três atos que causam problemas: o ciúme, a cobiça e a inveja. Soma-se a isso a falta de paciência em saber esperar o momento e a falta de afeto.

MUNDO INFANTILIZADO

"Uma pessoa difícil é intolerante com outras. Os adultos tornam-se infantilizados e os adolescentes, imaturos, que agem mais por impulso. Hoje o que acontece é que as pessoas fazem birra para impor o que elas entendem por verdade", discorre o pesquisador.

Sem o respeito da opinião adversa e a falta de flexibilidade em abrir concessões, atos de violência podem acabar sendo resultantes dessa relação difícil de convivência.

"Admitir que o erro é meu, por exemplo, está difícil de acontecer. Isso gera conflitos, são casamentos que terminam, brigas que acontecem. As amizades ficam descartáveis. Tudo pode ser facilmente deletado, igual nos grupos virtuais. Hoje está tudo muito descartável."

Ele ainda completa, ao falar das consequências. "Dependendo da adversidade, as pessoas podem buscar até o suicídio. Percebemos que há suicídio ou tentativa por impulso da pessoa não saber lidar com a adversidade do momento. A violência contra a mulher é outra situação, o homem age por impulso, sem pensar nas consequências. Isso demonstra imaturidade emocional da sociedade que vivemos."

Os estudos feitos pelo pesquisador tenta criar mecanismos para melhorar o relacionamento interpessoal de forma científica. "Hoje precisamos ser muito mais negociadores, para evitar o conflito", resume Edilson Reis.

CONSEQUÊNCIAS GRAVES

O pesquisador Edilson Reis concedeu entrevista a canal do Youtube para falar sobre situações que resultam em depressões e dificultam a relação das pessoas. Assista.

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