ARTIGO

Ruben Figueró: "Política, não é fé"

Ex – senador da República

11 ABR 2017 Por 02h:00

“Política, porém, não é fé” prelecionou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em recente artigo no ESTADÃO, na coluna Espaço Aberto, edição de 2 de abril. Discorreu o ilustre e credenciado articulista que nada obstante o clima tenso que a Nação vivencia entre momentos de desânimo, descrença nos valores do estado democrático, há ainda que se acreditar nos sinais de vida pela recuperação de nossa economia e a disposição firme do atual presidente Temer em enfrentar temas que “são tabus” como as reformas, casa de marimbondo. Enfrentar essas casas de marimbondos atesta a forte personalidade de quem tem a convicção de que destruí-las separará o joio do trigo e colocará o País novamente nos trilhos.

Considera FHC que é neste momento de recuperação da saúde do Estado, no auge pleno da Operação Lava Jato é uma boa oportunidade para a construção de uma nova agenda – iniciando-se pela reforma política.
Sempre entendi que nos instantes de maior tensão vivida pela sociedade é que se oferece campo fértil para surgir propostas, diria, salvadoras. E a reforma política deve ser prioritária para a discussão e a consequente execução do que se almeja. Estou com o ex-presidente FHC “devemos rever as regras eleitorais aproveitando o impulso da voz das ruas para aperfeiçoar”, olhando para o horizonte e tendo convicções para o norte. Como o eminente líder afirmara “política, porém não é fé”.

Política, entendo, é o exercício da convicção haurida no dia a dia, a luta incansável, permanente para a construção, entre as diferenças, o bem comum. Esta construção, que no caso do nosso Brasil seria uma reconstrução. Uma reconstrução sob pilares de argamassa de cimento, pedra e ferro que dê sustentação à vontade popular, através do voto legitimamente construído. Sou parlamentarista consciente que o voto legítimo é o distrital puro, enfatizo puro, pela sua íntima ligação política e ideológica entre o eleito e seu eleitorado; parlamentarista para que o poder executivo não seja mais o que é hoje: o senhor de si acima de todos, governo onipotente e pessoal que não se coaduna com a atual evolução de nossa cultura política.

Esboça-se no Congresso Nacional uma emergencial reforma partidária e eleitoral, dela sobressaindo uma estrambólica “LISTA FECHADA” modelo brasileiro, uma saída inteligente para salvar do naufrágio do descrédito popular muitos dos atuais parlamentares por este País afora. O princípio da lista fechada, reconheço, é democrático, utilizado em vários países onde a legitimidade eleitoral é consagrada. Infelizmente  aqui - me parece - pretendem desvirtuá-la com endereço certo diante da ventania moralizadora que sopra da Operação Lava Jato.

No projeto em análise na Câmara dos Deputados, a Lista Fechada traz alguns inconvenientes graves: o eleitor estaria privado da escolha de seu candidato preferido, o mais das vezes; a prevalência das cúpulas partidárias na colocação dos candidatos na lista dando preferências aos “queridinhos” no alto daquela, marginalizando os melhores valores;  possibilidade claramente viável e compreensível de o eleitor abster-se da escolha, anulando o voto ou deixando-o em branco. Mau para a democracia.

O prazo para prevalecer a reforma eleitoral escoa-se no início de outubro próximo. Urge decidir mesmo que seja pelo que se articula através da lista fechada, meia sola e mal-intencionada.  Penso que manter a lei eleitoral atual, cujas raízes vem da finada Constituição de 1934, é perpetuar “ a tranqueira” (a madeira que se acumula nas curvas do rio após uma enchente, impedindo o curso das águas) como dizia o saudoso Lúdio Coelho, em suas tiradas oportunas e memoráveis.

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