CRÔNICA

Raquel Naveira: "Caminho suave"

14 MAR 2017 Por 03h:30

Lembro-me com carinho da cartilha com a qual fui alfabetizada: a “Caminho Suave”. A capa era linda: uma menina de uniforme branco e azul, subindo por um caminho que dava numa casa, onde se lia a palavra “Escola”, numa placa em cima da porta.

A estrada era ladeada por enormes lírios alaranjados, solenes, verdadeira festa de primavera. Dava a impressão que a menina, segurando os cadernos com um braço, pelejava com os lírios, com o outro. E a menina, claro, era eu. 

Pertenço a uma era de ouro, brasileiros que estudaram com essa cartilha da educadora paulista Branca Alves de Lima. Ela defendia a leitura como um ato global e audiovisual, trabalhando com imagens e com unidades completas para posteriormente dividi-las em partes menores, as sílabas. A cartilha foi retirada autoritariamente do catálogo do Ministério da Educação, pois foi adotado um novo modelo baseado no construtivismo. A professora Branca vaticinou: “O governo está decretando que os alunos não usem mais cartilhas. Mas só ao final de décadas é que vai chegar à conclusão se o construtivismo dá ou não resultados”. Morreu , entristecida, aos noventa anos. 

Hoje, à margem do currículo escolar, a cartilha “Caminho Suave” ainda vende milhares de exemplares e muitos alfabetizam seus filhos e netos com ela. Foi nessa cartilha que tive o primeiro contato com a palavra escrita, com os desenhos, o poder dos códigos secretos. Para mim, era impressionante ver a letra “a” inserida no corpo de uma abelha, o “b” no bebê, o “o” dentro de um ovo. 

Percebi que palavra era cor, conteúdo, tom, pele de pensamento. Minha alma de poeta já via luz nas letras do alfabeto, constelações, firmamentos, correntes elétricas, forças mágicas que regem o mundo. Repetia as palavras até a exaustão: “Leite, leite, leite”. “Uva, uva, uva”. E muitas vezes me vinham lágrimas aos olhos. Lágrimas de artista.

Percebi que as palavras têm beleza, cintilações, que uma ligada à outra formam uma frase, uma estrutura de fábrica, uma música de compassos e melodias, um jogo lúdico que poderia me transformar de criatura à criadora. Palavra perene.  

Cada vez que pego a caneta, o papel em branco e escrevo uma palavra, um poema, uma crônica, sinto que segui aquele caminho suave, que subi os degraus da escada que me levavam à escola da vida. Continuo pelejando com os lírios alaranjados.

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