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Luiz Fernando Mirault Pinto: "Qual povo?"

Físico e administrador

4 OUT 2017 Por 01h:00

A todo o momento, ao nos referirmos à situação política atual, ouvimos que as mazelas, as aflições, as angústias, as afrontas e os desmandos que assolam o País seriam por conta da escolha dos maus políticos e por exclusiva responsabilidade “desse povo que não sabe votar”.

O termo povo na antiguidade se referia àquele com capacidade de decidir sobre os assuntos do Estado, composto pelos cidadãos com disponibilidade de tempo e recursos.

Na Idade Média, a posição se inverteu e passou a ser chamada de plebe, sem direitos de cidadão, considerada sem capacidade psicológica e desqualificada para participar da gestão pública.

Com os avanços civilizatórios, os povos tiveram designações étnicas, definidas pelos colonizadores: naturais, primitivos, indígenas, em razão de crenças, tradições, costumes e cultura.

Essas sociedades viviam sem hierarquização no processo produtivo, sem distinção de castas, até surgirem divisões: senhores, nobres, clero, burgueses de um lado; escravos, súditos, aldeões, proletários, do outro; tudo em função da produção excedente e da propriedade, quando grupos dominantes e forças produtivas passaram a coexistir com acordos na alternância do poder. 

A que povo se atribui a incapacidade de escolha de um bom representante político? Seria a classe de grande poder aquisitivo, padrão de vida elevado, de consumo acima da média, capaz de se permitir cultura e lazer, diplomados em alto nível, com atividade econômica consolidada, salários polpudos que permitem financiar a educação dos seus no exterior, representada socialmente pelo grande poder de influenciar e participar de decisões políticas, relacionada à propriedade industrial, identificada como uma parcela diminuta da sociedade (1%), mas que representa a classe política e legislativa do País (60%), a judiciária (40%), os professores universitários (25%), os descendentes de famílias nobres tradicionais (30%), os empresários (12%), os militares (10%) e os profissionais autônomos (5%)?

Talvez os 54% dos indivíduos que ainda têm seus empregos, alguma formação acadêmica, preservam a escola dos filhos, possuem crédito comercial e bancário, um arremedo de poupança, consumo planejado, preveem alguma reserva financeira, têm expectativa de futuro, socialmente articulados, de espírito crítico e individualistas?

Trata-se do grupo de desempregados que admite o trabalho infantil, o crédito informal (parentes, agiotas), incapaz de reservas, vivendo o presente, contumaz presença nas filas (postos de saúde, transportes coletivos, vagas escolares), convivendo com a violência e abandono familiar, resignado e afeito ao fatalismo e as vicissitudes da vida?

Quem sabe os 25% da população que habita em sapês e palafitas, sem saneamento básico, que anda “léguas” por um corote d’água, vive por uma buchada, pés descalços, “mas que é, antes de tudo, um forte” (Euclides da Cunha)?

O primeiro grupo teria maior probabilidade de ser o culpado, pois tem acesso aos ambientes favoráveis à manutenção do status quo, participa das políticas, influencia na legislação por meio da escolha de parlamentares, quando não exclusivos de suas representações profissionais, de amigos e parentes, ou daqueles que fazem parte das instituições públicas ou dos órgãos de classe a que pertence.

Não necessariamente! Os analfabetos políticos permeiam todos os grupos sociais: são pessoas egocêntricas, que não assumem compromissos, que se apoiam em opiniões alheias e são imaturas, razões suficientes para serem preconceituosas e intolerantes com tendência a culpar os demais.

Certo é que o povo que não tem recursos nem tempo sabe que a culpa está onde existe o dinheiro, o poder, as facilidades, as corporações, os acordos e lobbies e, mais importante, o desejo de se manter uma estabilidade, o bem-estar, o caviar ou mesmo a descendência e a indecência do coronelato político instalado e esses atributos não são próprios desse “povo”, “aquele que não sabe votar”, a quem sempre se atribuem os males de todas as ocasiões.

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