OPINIÃO

Luiz Fernando Mirault Pinto:
"As entrelinhas e as linhas tortas"

Físico e Administrador

8 JUL 2017 Por 01h:00

Para os que vibram com estatísticas e comparações, elas nos dizem que no Brasil existem 14 milhões de analfabetos ditos absolutos, e cerca de 35 milhões de analfabetos funcionais, atingindo atualmente 68% da população, e dentre os estudantes universitários o percentual chega a 38%.

São aqueles que sabem contar e realizar operações matemáticas rudimentares, embora só consigam ler e compreender títulos e sentenças curtas. Alguns leem textos resumidos sem, no entanto extrair informações sobre os mesmos, ou seja, sem a compreensão e interpretação do conteúdo. São minorias os que entendem, leem e compreendem alguns textos e que parecem dominar a álgebra primária. 

Aqueles que se julgam alfabetizados devem ser capazes de ler um texto além do que está explicito uma vez que nas entrelinhas, se esconde outro discurso, outro significado, isto é, outro texto.

Por conseguinte não basta ler, escrever, descrever o texto, captar a ideia explícita, definir um objetivo declarado, e sim organizar a construção do sentido, por meio de conhecimento da origem, da experiência e formação individual, das informações relacionadas ao conteúdo adicionando uma dose de intuição.

Entender as entrelinhas envolve não apenas a pratica da leitura e interpretação de um texto escrito ou lido (noticia), é preciso a habilidade de compreender a leitura do mundo e a interpretação da vida. Transitar entre o real e o imaginário, entre o concreto e o abstrato, dialogando com o consciente e o inconsciente. Em outras palavras, nas entrelinhas está escondida a verdadeira história, quem por trás dela, que se esconde e se beneficia com a mensagem que se quer passar, a quem interessa que acreditemos no texto explícito. 

Outra maneira de interpretarmos ou darmos sentido a uma história que a princípio não nos agrada é justificarmos que uma coisa aparentemente desagradável tem por si só sua razão de ser, ou por conta de Deus, que “escreve certo (direito), por linhas tortas”. É um ditado emprestado da bíblia para adiarmos as preocupações deixando para que o tempo dê a solução para aquilo que reprovamos ou que desconsideramos sua importância.

Diariamente somos bombardeados por informações e cabe a nós filtrarmos os fatos da maquiagem, ou máscara, para darmos sentido que mais se aproxima ou que se assemelha da realidade dos acontecimentos. 

Na tentativa de entendermos uma mensagem, por vezes subliminar, (conteúdo dissimulado) ou editada, manipulada, incompleta, dirigida e que nos foge da compreensão, da visão e da audição, quando associada aos ritos, crenças, e culturas ela torna-se incompreensível e a interpretação dos eventos quanto à veracidade, e se eivada das distorções do pensamento (cognitivas).

Uma Informação ausente, falsa, ou a desinformação (assuntos variados não correlatos) serve para mascarar os objetivos daquilo que nos põe em risco, que testa a nossa inteligência, ou que nos faz pertencer à vala comum dos alienados. Frases de efeito, curtas, com apelo plural e de aceitação popular são os motes repetidos para que a ideia a ser transmitida seja incutida.

Hoje nos são disponibilizados inúmeros textos, diversos assuntos e variadas formas de apresentação, (livros, jornais, televisão, internet) que exigem uma formação sólida e eclética para quem não se permite à manipulação das informações frente a textos expressos (excessivamente objetivos) ou expressivos (repetitivos, reforçando uma ideia). 

Além da interpretação inadequada de textos, destacamos a leitura bíblica, em que se exige um estudo aprofundado (exegese) sobre a origem, historia, e costumes representativos dos fatos. Não precisaremos chegar ao extremo de uma análise textual envolvendo princípios semióticos, ou níveis críticos de análise, e sim superficialmente, com o emprego da intuição desde que desprovidos de intolerância, preconceito, e livres do “efeito manada”, poderemos entender os textos.

Comparar opiniões contrárias, avaliar a veracidade das informações, diversificar as fontes, são praticas que evitam a “idiotização” que atualmente estamos vivendo, na replicação de post ridículos, divulgação de mentiras, reprodução de notícias requentadas, ridicularização de pessoas e instituições, e acusações sem direito a defesa. As mensagens das entrelinhas não entendidas sempre beneficiam minorias privilegiadas interessadas na manutenção do “status quo”, com a aceitação de leitores despreparados.

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