Opinião

Luiz Fernando Mirault:
Água de beber, camará

Luiz Fernando Mirault Pinto é Físico e administrador

15 ABR 2017 Por 02h:00

O que sempre me intrigou nos westerns (A Conquista do Oeste) era o enredo envolvendo a propriedade e o direito inalienável do proprietário das terras sobre as águas, não permitindo qualquer acesso dos fazendeiros vizinhos. Num desenho animado atual retrata bem a temática, quando Rango (um lagarto) luta em uma cidade empoeirada, onde o banqueiro (a aranha) sem escrúpulos mantém um cofre-aquário como uma riqueza protegida por um pistoleiro (a cobra), para restabelecer o abastecimento.

James Bond, em “Quantum of Solace” se defronta com um empresário que tenta adquirir por meios ilícitos, um manancial, uma alusão a riqueza dos tempos atuais, de uma cidade boliviana.  Esqueceram, no entanto os roteiristas que a chamada “guerra das águas” (2000), ocorreu justo em Cochabamba-Bolívia, onde os habitantes se revoltaram contra a venda das águas municipais para um grupo explorador e após uma série de movimentos, prisões, mortes e demais arbitrariedades, venceram ao intento, com o recuo do governo.

Jamais na minha ingenuidade infantil teria lugar na minha imaginação, uma disputa de um bem natural e por direito, de propriedade da humanidade, e muito menos a possibilidade de sua escassez uma vez que aprendíamos em ciências, o “ciclo constante das águas” e “a transformação das coisas”, já que nada se criava ou se perdia. Mais tarde fui apresentado às leis de causa e efeito e da oferta e demanda onde a primeira justificaria o porquê dos acontecimentos e a segunda, o valor das coisas e a escassez.

Estudiosos afirmam que as águas estão se escasseando não só pelas mudanças climáticas, degelo, mas pelo uso desordenado ou sem critérios, pela contaminação de metais, dos componentes medicamentosos, da poluição descontrolada, dos dejetos industriais ou mesmo do emprego dela na agricultura ou na produção de bens. Para se obter uma maçã, é preciso de 300 litros de água. Estima-se em média 80 litros de água por cada dólar aplicado na industrialização de um produto industrializado, ou seja, se seu celular custou 200 dólares, significa que foram gastos em média de 16 mil litros de água com você. 

Quando bebemos água numa garrafa PET, seria como se gastássemos cerca de 2 mil vezes mais do que se fosse consumida na bica, isto é cada garrafa vazia de um litro necessita de 3 litros água para produzi-la, sem contar que para aquele seu cafezinho, foram consumidos 140 litros de água para atender toda a cadeia produtiva. 

Vamos parar de comer ou beber? Não, mas podemos diminuir o consumo de inutilidades ou dar uma maior vida útil para os produtos que compramos, pois alguns já dependeram do volume morto igualzinho ao Corydoras Paleatus, o famoso peixe limpa fundo. 

Neste ritmo de consumo e produção, fatalmente passaremos a consumir as águas de reuso, as dessalinizadas, as de esgoto tratado, e o pior é que por maior tecnologia empregada, ainda não conseguimos retirar das águas descartadas, ingredientes componentes de remédios como os anticoncepcionais e antidepressivos que já se manifestam negativamente na fauna marinha, impedindo a reprodução de peixes. O que diríamos dos Viagras, e Rivotris da vida.

Na esteira ou besteira das privatizações que concebe a água como bem de mercado, e não um direito fundamental, a moeda de troca pela má gestão e corrupção, ou caixa eleitoral, é permitir às grandes corporações mais acesso aos recursos hídricos, no envasamento, venda, e uso na produção de bens inúteis ou grupos financeiros interessados em explorar a natureza com nosso dinheiro e consentimento.

Não sejamos alarmistas, mas devemos ter em mente que precisamos diariamente de 2,5 litros de água e sem ela, resistimos de 2 a 5 dias de vida. Tomar conta daquilo que nos interessa e nos foi confiada é uma responsabilidade social, e deveríamos ser contra todo tipo de exploração de bens naturais e quem sabe, teríamos tido a sorte de Tom e Vinícius que um dia, lá em 1950, quando foram convidados para compor um hino a Brasília ao passear logo atrás do Palácio improvisado, ouviram o cantar de uma pequena fonte, responsável pela música “Água de Beber, Camará”, ou seja, água potável. Boa época, a água brotava do chão, podia ser bebida e de graça, todos éramos donos. 

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