OPINIÃO

Larissa Botacci e Vanessa da Palma: "O velho e o envelhecimento"

*

11 OUT 2017 Por 01h:00

A velhice, resultado de mudanças biológicas, psicológicas e sociais que vão ocorrendo ao longo da vida, pode ser vista de formas distintas: censitária ou cronológica, psicológica ou subjetiva. Partindo do viés cronológico, de modo geral considera-se que o indivíduo está velho quando alcança os 60 anos de idade, passando a ser classificado como pertencendo à “terceira idade” – um dos eufemismos que o discurso politicamente correto instituiu – ou idoso.

Com relação à subjetividade, compreende-se que o processo de envelhecimento não é vivenciado ou percebido da mesma maneira, de modo que não temos apenas uma velhice, mas sim uma velhice heterogênea, sujeita a diferentes contextos sociais, processos civilizatórios, representações e experiências.

Sendo a velhice um conceito historicamente construído, deve-se atentar para o momento em que o envelhecimento se torna uma preocupação. As mudanças que podem ser notadas com o advento da “terceira idade” não são determinadas apenas por mudanças no organismo, mas também por fatores sociais, como a perda dos papéis sociais e o consequente afastamento do sistema produtivo. Pode-se considerar, ainda, que, com o advento da valorização da infância, tende-se a desvalorizar a velhice.

Pode-se estender essa reflexão a outros aspectos, como o aumento de idosos e da perspectiva de vida, pois a população velha do século XXI é fruto do aumento populacional do século anterior, sobretudo dos baby boomers, ou seja, dos nascidos em período de alto índice de natalidade após a Segunda Guerra Mundial. E esse fenômeno resulta em um número expressivo de pessoas com poder de compra que estão envelhecendo. A isso se soma a redução dos índices de natalidade e o avanço científico que consegue  prolongar a velhice.

Diante do exposto, o velho aparece como um elemento dissonante, que trafega entre o culto ao novo, ao jovem, e construções da velhice, ora representada positivamente, ora por visões pejorativas.

Sobre as visões positivas, podemos destacar as associações feitas à experiência de vida e à sabedoria, pois os velhos são fonte de cultura, cuja função social é lembrar. Sobre as visões negativas, manifestam-se quando o envelhecimento é associado à perda da força de trabalho, da capacidade produtiva, ou a mitos e preconceitos, que envolvem, sobretudo, questões relativas a doenças, solidão e proximidade com a morte. Sendo o trabalho elemento estruturante da sociabilidade humana, a perda da capacidade produtiva poderia comprometer o lugar que o idoso ocupa na sociedade.

Essa é uma das formas de encarar a “nova” fase, porém, considerando as novas implicações e vivências a que estão submetidos, os idosos do século XXI podem optar por evitar tornar-se inativos e ou improdutivos, mudando o foco de suas atividades.

Para que se torne mais inteligível a importância do trabalho para o homem, se faz necessário recorrer a Marx, para quem “antes de tudo, o trabalho é um processo entre o homem e a natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a natureza”. Ou seja: o trabalho é uma atividade humana, de modo que você se torna humano a partir de sua relação com a natureza, para extrair dela o necessário para sua sobrevivência.

Vale ressaltar que Marx pressupõe o trabalho como algo que pertence exclusivamente ao homem, pois o ser humano idealiza o que vai fazer, distinguindo-se dos animais. Assim, Marx oferece uma explicação ontológica, do ser e sua existência, bem como nos permite entender as representações negativas que o envelhecimento possa vir a ter quando relacionado à perda da capacidade produtiva.

Diante do exposto, envolta num emaranhado de complexidade, a velhice, abarcando os campos biológico, psicológico, social e cultural, é marcada por experiências e valores que os idosos utilizam para se relacionar, bem como para interpretar o mundo. É, pois, fundamental que a pessoa com mais de 60 anos (re)conheça que o exercício de sua capacidade produtiva depende do modo como concebe o envelhecimento, e não de sua idade cronológica.

* Larissa Fernanda Garcia Botacci é acadêmica de Administração e Vanessa Cristina Lourenço Ferreira da Palma é acadêmica de Direito

Deixe seu Comentário

Leia Também

Voltar
©2017 Correio do Estado S/A. Todos os Direitos Reservados.
Plataforma
Versão Clássica