Opinião

José Neres: Uma
verdadeira prisão domiciliar

José Neres é Professor, escritor, doutorando em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional pela Uniderp

10 JUL 2017 Por 02h:00

Nos últimos anos, ou pelo menos nos últimos meses, os noticiários têm comentado bastante sobre pessoas condenadas pela Justiça a penas que deveriam ser cumpridas em regime fechado em uma penitenciária, mas que conseguiram o benefício do chamado regime semiaberto, em que o apenado pode trabalhar durante o dia, devendo voltar à noite para a cela; ou mesmo em prisão domiciliar, quando é possível a pessoa trabalhar no período diurno, mas deve passar as noites, os fins de semana e feriados em seus respectivos domicílios ou em locais determinados e conhecidos pelos agentes da Lei. 

Essas notícias divulgadas cotidianamente em rádios, telejornais e nas inúmeras páginas da internet chocam as pessoas, que quase sempre veem esses benefícios como um abrandamento de pena principal, ou uma quase premiação para quem cometeu delitos graves e que agora podem usufruir da presença de familiares e amigos muitas vezes em confortáveis casas, apartamentos ou mansões. 

Mas o que poucas pessoas têm percebido é que, independentemente de haverem ou não cometido algum tipo de crime, muitos brasileiros, mesmo sem a necessidade de ordem judicial, também já vivem em regime de prisão domiciliar há bastante tempo, tudo por conta da crescente onda de violência que assola o País, por causa da catastrófica condição econômica do trabalhador brasileiro e também pelos avassaladores índices de desemprego. Três fatores nada desprezíveis e que implicam grandes impactos na vida das pessoas de todas as faixas de renda, do mais rico ao mais pobre, com as devidas proporções.

É impossível desprezar a influência das múltiplas violências nas práticas sociais cotidianas. As pessoas têm medo de transitar pelas ruas e, quando se aproxima o período da noite, voltam correndo para seus lares (os que têm o privilégio de terem um), trancam suas portas e janelas, enclausuram-se na sala e passam a ver mundo pelo olho mágico da tevê ou pelos aplicativos disponíveis na grande rede de computadores, assustando-se com os menores ruídos que venham do exterior. A cada nascer de dia, vem a sensação de haver sobrevivido a uma interminável guerra civil, mas também vem o medo das inseguranças que se escondem à luz do sol em todas as esquinas e cruzamentos.

A condição econômica é outro fator que limita a liberdade do indivíduo e faz com que toda a família se recolha à casa todas as noites, sem esperança de diversão ou pelo menos de poder aproveitar as belezas naturais da cidade ou do campo. A noite deixou de ser um momento de repouso para ser a esperança de recuperar o fôlego para os afazeres laborais do dia seguinte. O dinheiro investido em diversões noturnas a sós ou acompanhado passou a ser contabilizado como perdas pecuniárias no fim de mais um mês de trabalho. É mais lucrativo recolher-se ao lar e torcer para um novo dia raiar.

O trabalhador desempregado é outro que vive em prisão domiciliar. Depois de um dia inteiro em filas para cadastramento, ele sabe que deve voltar para casa e, muitas vezes com a barriga vazia, esperar pelo dia seguinte. Sua casa, à noite, se torna não apenas um cárcere forçado para seu corpo, mas também uma prisão para seus sonhos de dias melhores.

Dessa forma, diferentemente dos presos de justiça, que têm a prisão domiciliar como um alento, com visitas constantes e até mesmo um esquema paralelo de segurança, o trabalhador brasileiro que se vê diariamente obrigado a trancar-se dentro do próprio lar, sem direito a rondas periódicas das forças legais e nem mesmo à esperança de dias melhores virão, amargam a certeza de que vivem em uma verdadeira prisão domiciliar, sem consolo de algum dia conseguirem a liberdade.

Deixe seu Comentário

Leia Também

Voltar
©2017 Correio do Estado S/A. Todos os Direitos Reservados.
Plataforma
Versão Clássica