ARTIGO

Gilberto Verardo: "MS: nossa identidade cultural aos 40"

Psicólogo/Psicoterapeuta

11 OUT 2017 Por 02h:00

A identidade cultural de um povo é igual a um RG de um cidadão. É uma espécie de amalgama que une diferenças em nome de uma harmonia coletiva. É um ar que todos respiram, mas ninguém o segura nas mãos.

Logo após a divisão territorial de Mato Grosso, nos primeiros anos da década de 80, Henrique Splenger - artista plástico de primeira grandeza liderou um movimento cultural chamado de UNIDADE GUAICURU, propondo um símbolo para a identidade cultural do novo Estado de Mato Grosso do Sul. Ao esforço e a liderança de Henrique (in memoriam) juntaram-se Luís Antônio Torraca, Gilberto Verardo, Adilson Schieffer, Cleir Ávila, Jonir Figueiredo, Geraldo Espindola, Paulo Simões, Lenilde Ramos, Professor Campestrini, Jorapimo, Grupo Acaba, Paulo Gê, entre tantos outros, não menos importantes, que foram se contaminando pela ideia destes idealistas de uma cultura sul-mato-grossense.

É bom relembrar que os Kadiwéu, que deu origem aos Guaikurús, são um grupo indígena do Brasil antigamente conhecido como “índios cavaleiros” por sua destreza na montaria e criação de equinos e pelo porte guerreiro, alto e forte. Fazem parte dos grupos indígenas guaikurú e embaiá. Habita (vam) a região a oeste do rio Miranda, na fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai, na Reserva Indígena Kadiwéu, com 538.000 hectares, no município de Porto Murtinho, em Mato Grosso do Sul.

Pode não ser muito, mas ajudou Mato Grosso do Sul a dar cor e sentido a uma divisão politica e geográfica.

A estátua do guerreiro Guaicuru montado em seu cavalo, eternizado no Parque das Nações Indígenas, reconheceu o trabalho cultural dessas pessoas, numa iniciativa do Governador Jose Orcírio, ao mesmo tempo em que passou a inspirar temas e pinceladas de muitos artistas e publicitários com os pés em MS, além de dar certa magia de liberdade e independência e de uma estética própria e bonita de se ver.

Passados quarenta anos, a coisa mudou um pouco. O desenvolvimentismo, pós Pedrossian, trouxe uma nova configuração na nossa paisagem cultural e econômica. Ao cheiro do estrume de gado foi acrescentado um odor químico das lavouras de soja, que por sua saga proteica acabou atraindo migrantes do sul e sudeste brasileiro, carregando consigo seus arraigados traços culturais.

Novato e quarentão, Mato Grosso do Sul mais uma vez lança mãos de seus artistas para não deixar evaporar, por um desenvolvimentismo migratório, a identidade de Mato Grosso do Sul, que tem raízes profundas na atividade agropastoril e na abundancia de recursos ambientais, aliás, eleita a paixão maior da civilização do século XXI, que provocam desejos dos mais inusitados que vão de criativos a mesmices que são toleradas e assimiladas pela elegância do povo sul mato-grossense. Como diria Geraldo Rocca – “A novidade vem atrás da tradição.”.

Vaidades a parte, mas a grande maioria dos políticos de MS é migrante. Então bem que poderiam devolver o gesto de elegância dos sul mato-grossense em bem recebe-los e prestar uma homenagem a Henrique Splenger e membros da desaparecida Unidades Guaicuru, não só como forma de respeito cultural, mas também de valorização de um trabalho que nunca pode ser pago, já que nasceu da espontânea vontade dos artistas sul mato-grossense de pregarem a liberdade cultural como nossa cor preferida e a decisão solidária e democrática como sentido da nossa vida. Então bem que poderiam valer-se da importância politica outorgada pelo povo de Mato Grosso do Sul nos ajudando a conceder incentivos, fiscais também, desde que a sustentabilidade ambiental e cultural não utilizada como pano de fundo para o lucro descompromissado.

 

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