OPINIÃO

Fabiane Esperança Rocha: "Vale a pena
ser um profissional qualificado?"

Psicologa e Psicoterapeuta

12 JUL 2017 Por 01h:00

“A Deficiência não me define. Eu existo antes dela” (autor desconhecido). 

Estar há quase quatro meses desempregada e não conseguir recolocação no mercado de trabalho poder ser justificado pela crise econômica. Porém, para aquelas pessoas que possuem qualquer deficiência, a situação ainda é pior. O pessoal dos Recursos Humanos me vê como se eu fosse incapaz de assumir um cargo de responsabilidade. E, apesar da minha formação, recebo ofertas de trabalho que não correspondem aos meus anseios profissionais. Por exemplo, recebi uma oferta para exercer a função de controlador de acesso e outra de porteiro.

Não sei o que acrescentaria à minha formação trabalhar nestes postos. Em ambos os casos, ficaria sentada resolvendo problemas voltados para segurança e acesso dos clientes. Teria poucas chances de incrementar meus relacionamentos pessoais e entender a complexidade dos seres humanos. Creio ter mais habilidades do que as necessárias para exercer outras funções.

As empresas possuem um cronograma repleto de funções e isto me faz imaginar que elas poderiam me oferecer um cargo que me possibilitasse crescimento e ascensão para a minha carreira. Tenho consciência de que as pessoas que precisam se qualificar não possuem condições financeiras e podem estar em situações pior do que a minha. Elas não têm nem mesmo oportunidade de fazer escolhas.

Seria interessante que as empresas mudassem suas estratégias de contratação. Em vez de eliminar os futuros funcionários na avaliação e aqueles que nem chegaram a contratar, as empresas poderiam oferecer programas de incentivo, como treinamento e ou bolsa de estudo para qualificação. Não teriam nada a perder, só a ganhar. Parece ser mais fácil dispensar e dizer que a pessoa não tem o perfil que a empresa deseja. O sentimento da pessoa que ouve é de frustração. 

As pessoas com deficiência que têm curso superior, cursos técnicos profissionalizantes ou batalharam por uma bolsa de estudos, ou que estão em posição mais privilegiada do que os demais que não se graduaram, podem ter experiências e visões de mundo diversas. Fala-se em leis que empoderam as pessoas desfavorecidas, em cotas para universidades, em bolsas–auxílio, mas o grupo que desfruta destes benefícios é pequeno em relação às necessidades individuais.

Por outro lado, as empresas e os profissionais dos Recursos Humanos aumentam as exigências e criam empecilhos para que os candidatos possam mostrar diretamente suas habilidades e competências. Atualmente, as relações entre potenciais empregados e empregadores ocorrem de modo virtual ou por agências de emprego. Acredito que esta forma de avaliação não revela as qualidades reais das pessoas, suas vivências, a intensidade de suas experiências e formas de apropriação de saberes e conhecimentos.

Na medida em que as distâncias aumentam entre aqueles que procuram emprego e aqueles que empregam, as pessoas com deficiência ficam com menos condições e chances de dialogar, de se relacionar e de se apresentar enquanto uma pessoa que tem qualidades e vontade de trabalhar. Além disso, mesmo que  o profissional tenha ou não qualificação, ele pode superar suas limitações e colaborar para desenvolver melhor suas tarefas.

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