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Confira o editorial deste sábado/domingo: "O país sem crise de Temer"

8 JUL 2017 Por 03h:00

Se a intenção de Temer era dar um ar de normalidade e passar imagem de estabilidade só conseguiu causar incredulidade.

Decididamente, o presidente da República, Michel Temer, vive em um universo paralelo. Embora seja importante o tom sóbrio e sem dramas para o mercado  mundial, chega a ser cômico dizer aos jornalistas brasileiros que não há crise econômica no País. A afirmação, feita na chegada a Hamburgo, na Alemanha, onde ele participa da reunião do G20 ignora índices preocupantes e chega a ser um acinte a toda a população, que sofre as consequências de uma das piores recessões vividas no País.

A fala de Temer não fala em retomada de crescimento, em recuperação ou melhora gradativa, ao contrário; é taxativa: “crise econômica no Brasil não existe. Vocês tem visto os últimos dados. Pode levantar os dados e você verá que estamos crescendo no emprego, estamos crescendo na indústria, estamos crescendo no agronegócio. Lá não existe crise econômica”. Questionado, ainda, se o cenário político não atrapalharia, negou.

Há argumentos extremamente frágeis que apoiam a afirmação de Temer. Há leve melhora em alguns setores, como o agronegócio, que cresceu 13,4% no primeiro trimestre do ano e tem sido o responsável pela sobrevivência econômica do País. Em maio, a produção industrial teve crescimento pelo segundo mês consecutivo, porém, na visão de economistas, não pode ser considerada a recuperação do setor, responsável pela queda do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre.

A previsão do PIB, aliás, ainda é mantida em 0,5%, mas cogita-se  ser “um pouco menor”, nas palavras do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Em contrapartida, os números negativos, infelizmente, ainda pesam no cenário econômico do Brasil: o desemprego atinge 13,8 milhões de pessoas, índice estável em relação ao trimestre anterior, mas um demonstrativo da manutenção da crise. A turbulência politica, ao contrário do que faz parecer, mantém o Brasil na instabilidade, afugentando possíveis investidores, que aguardam os desdobramentos para avaliar se o país é ou não um investimento saudável.

Os estados e municípios penam para arcar com pagamento de prestadores de serviços e o custeio, principalmente, com a folha dos servidores. Em Mato Grosso do Sul, há previsão até de parcelar salários, em decorrência da queda da arrecadação, como por exemplo, do gás natural, com previsão de passar dos R$ 90 milhões para R$ 40 milhões.  Na Prefeitura de Campo Grande, a redução no índice de participação dos municípios pode acarretar perda de R$ 54 milhões em ICMS. Na quinta-feira, a Capital ainda teve o dissabor de ter a cobrança retroativa da Contribuição sobre o Custeio da Iluminação Pública (Cosip) suspensa por decisão judicial.

Se a intenção de Temer era dar um ar de normalidade e passar imagem de estabilidade só conseguiu causar incredulidade. Está no papel de gestor, enaltecendo o lado positivo, mas deixa de ser razoável quando ignora a lógica. Porém, ele mesmo, em ato falho, acabou dizendo em vídeo que está “fazendo voltar o desemprego”. Um lapso inconsciente da difícil realidade em que o País vive atualmente.
 

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