CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial deste sábado/domingo: "Contas da corrupção"

17 JUN 2017 Por 03h:00

Por trás dessa benevolência, revelam-se hoje os esquemas de corrupção. A conta é alta, mas banir os desvios deve ser prioridade.

Insegurança política, econômica e jurídica. O País ainda enfrentará longos percalços para superar o desafio dos escândalos das acusações de corrupção, fomentados pelas sucessivas delações premiadas e pelos desdobramentos da Lava Jato, os quais, a cada fase, atingem novo grupo de empresários ou políticos. Passado o capítulo do julgamento pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) da chapa Dilma-Temer, a semana “pós-feriadão” começa com expectativas.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, vai apresentar a denúncia contra o presidente Michel Temer e o ex-deputado federal Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) por volta do dia 26, e não mais na segunda-feira, dia 19, como estava previsto. Isso porque a Polícia Federal terá mais tempo para concluir a denúncia sobre os esquemas denunciados pelos donos da JBS.

Na Câmara, a promessa é dar celeridade à votação da eventual denúncia contra Temer, oferecida pela Procuradoria, pois governistas acreditam que há votos suficientes para barrá-la. Se o meio político promete fortes debates, a movimentação também mostra-se intensa no meio econômico. No começo da Lava Jato, o impacto das graves denúncias de contratos superfaturados e desvios recaiu sobre as maiores empreiteiras do País. Obras foram suspensas, funcionários demitidos e a venda de ativos começou a ser negociada. Foi preciso substituir o plano de expansão dos negócios pelo plano de sobrevivência, diante do iminente risco de falência. A construção civil apresentou sucessivos índices negativos.

Gigantes do setor, a exemplo da Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Engevix, deixaram lacuna no mercado. Situação que se assemelha ao que começa a acontecer em relação ao grupo J&F, controlado pelos irmãos Wesley e Joesley Batista. O domínio no setor frigorífico, por meio da JBS, já resulta em impacto na pecuária. A empresa só está pagando pelo gado após 30 dias, mas os pecuaristas enfrentam resistência ao tentar trocar notas promissórias nos bancos, que temem calote. Assim, o número de bois abatidos caiu significativamente e o efeito na receita pode ser devastador, principalmente em estados com tradição nesta atividade e onde o JBS tem forte atuação, a exemplo de Mato Grosso do Sul.

Relatórios financeiros já apontam que o grupo pretende vender empresas que somam R$ 8 bilhões, e o processo de negociação da Eldorado Celulose, em Três Lagoas, já começou. Por um lado, abre-se a possibilidade de ao menos garantir que os investimentos continuem com as aquisições por novo grupo. Por outro, corre-se o risco de “invasão estrangeira”, dominando esse espaço no mercado brasileiro, combalido com a forte recessão. Esse é um dos cenários que se desenha em Três Lagoas e que repete o enredo das negociações envolvendo grandes construtoras. O receio de heranças da Lava Jato – como o pagamento de multas – vem segurando essas negociações e corrobora com o perigo de paralisações.

O reflexo financeiro é o preço que se paga pela permissividade de gestores, que chancelaram o domínio de empresas em determinados meios, as quais se tornaram gigantes com incentivos fiscais absurdos e créditos praticamente irrestritos. Por trás dessa benevolência, revelam-se hoje os esquemas de corrupção. A conta é alta, mas banir os desvios deve ser prioridade. 
 

Deixe seu Comentário

Leia Também

Voltar
©2017 Correio do Estado S/A. Todos os Direitos Reservados.
Plataforma
Versão Clássica