Correio do Estado

Confira o editorial deste sábado:
Privilégios na saúde

15 ABR 2017 Por 03h:00

A administração de um hospital do porte da Santa Casa não pode conceder benesses a uns em detrimento de outros

É indiscutível a importância e a contribuição da Associação Beneficente de Campo Grande (ABCG) na história da cidade e na prestação de serviços não somente à população local, mas a todos que buscam atendimento hospitalar na Capital sul-mato-grossense. Por estes motivos, é pesaroso ver a situação da Santa Casa, que está sendo utilizada como instrumento de barganha. A cada nova informação divulgada, descobrem-se ações questionáveis da administração, com base em critérios explicitamente direcionados ao atendimento de pacientes.

Em reportagem divulgada na edição de sexta-feira do Correio do Estado, balanço sobre as obras no hospital evidencia o privilégio a pacientes dos convênios e particulares. O Prontomed, entregue em 2015, foi ampliado para atendimento 24 horas nas especialidades de ortopedia e pediatria. O terceiro e quarto andar foram reformados. Na única ala exclusiva para usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), a reforma segue em andamento, aparentemente relegada a segundo plano. A associação não informou quanto foi gasto, limitando-se a explicar que são fontes diversas do Ministério da Saúde, além de contrapartida da Santa Casa, proveniente de convênio para recuperação do setor. Enquanto isso, a conclusão do Hospital do Trauma segue a passos lentos, tendo consumido R$ 6 milhões e, até o fim da obra, com previsão de totalizar R$ 23 milhões em gastos.

Este aparente privilégio aos pacientes da rede particular é uma afronta à população. A administração de um hospital do porte da Santa Casa não pode conceder benesses a uns em detrimento de outros. Recentemente, também, entrou em acordo com a Prefeitura de Campo Grande para que a regulação de vagas seja feita via Secretaria de Saúde, encaminhando pacientes de baixa e média complexidade às Unidades de Pronto Atendimento (UPA), com objetivo de reduzir atendimento em 30%. Com defasagem de médicos no setor, a consequência não poderia ser outra: fila e longa espera nos postos da Capital. Essa equação, infelizmente, está longe da lógica ideal: os postos deveriam ter estrutura justamente para receber pacientes dessas classificações, mas ainda há muito a se fazer pelo sistema público para que possam atender a contento. Regularmente, há denúncia de escassez de equipamentos, estrutura precária e falta de profissionais. Não à toa, todas as seis UPAs da cidade estão com procedimentos de investigação em andamento no Ministério Público Estadual (MPE), abertos para identificação de falhas na prestação de serviço.

Os órgãos fiscalizadores, como o próprio MPE, devem estar atentos ao que acontece na Santa Casa. A Associação Beneficente alega ter deficit mensal de R$ 3,5 milhões, mas abrirá mão de R$ 5 milhões que serão destinados a uma empresa que teria ajudado a negociar empréstimo de R$ 100 milhões na Caixa Econômica. Em ata da reunião do Conselho de Administração, um dos integrantes questionou a prática, considerado a intermediação “clara possibilidade da prática de propina”. Na última semana, o vice-presidente Alfredo Sulzer renunciou ao cargo que ocupava desde 2016, alegando motivos pessoais. Coincidência ou não, deixa a função em momento de disputa acirrada por mais verbas. Como dizem, fica a dica.

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