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Confira o editorial deste domingo:
Estratégia perigosa

13 MAR 2017 Por 03h:00

A consequência da paralisação é efeito cascata dramático e perigoso, atingindo a coletividade

A assistência médica e hospitalar é serviço considerado essencial pela legislação brasileira. Faz parte de grupo de atividades que não podem ser interrompidas, pois devem garantir o bem-estar da população, como abastecimento de água, transporte coletivo e segurança. Por isso, é temerário lançar mão da drástica decisão de suspender qualquer um desses atendimentos como forma de pressionar o poder público. A consequência da paralisação é efeito cascata dramático e perigoso, atingindo a coletividade.

A partir de hoje, o Hospital Universitário em Campo Grande suspenderá as cirurgias eletivas e os exames laboratoriais. Desde sexta-feira, deixou de receber pacientes pelo Pronto Atendimento Médico (PAM), mantendo o serviço somente aos que já estão internados. A medida foi tomada, segundo a diretoria da instituição, pois chegou-se ao limite do suportável. Faltam insumos como fio cirúrgico e medicamentos.

Alegam que os valores de repasse pactuados via Sistema Único de Saúde (SUS) são os mesmos desde 2007. Neste ano, o Universitário recebeu R$ 4,3 milhões, referentes à produção de dezembro de 2016 e janeiro de 2017, já insuficientes. Em nota às secretarias de Saúde, Ministérios Públicos e Conselho Regional de Medicina, o hospital teria informado que haveria suspensão, mas sem informar exatamente quando.

A paralisação de serviços é estratégia recorrente da Santa Casa. Em várias ocasiões, a diretoria decidiu suspender cirurgias eletivas por conta do atraso de repasses. Embora seja prejudicial ao paciente, que estava aguardando pelo procedimento agendado, é artimanha mais calculada do que fechar as portas do pronto-socorro. A estratégia adotada pelo HU, embora seja justificada justamente para não atingir a população, é faca de dois gumes. Pode surtir o efeito desejado, ou seja, agilizar a renegociação dos valores ou, ter como consequência efeito negativo, prejudicar alguém que estava à procura de atendimento, teoricamente, assegurado pela Constituição.

É evidente o quanto o setor de saúde precisa de investimentos e atenção máxima do poder público. A situação das Santas Casas no país beira o insustentável. Pelo menos 1,7 mil dos 2,1 mil desses hospitais operam no vermelho. Entre as instituições, ganha força a proposta de atender via SUS, o que representaria colapso no sistema público. Como não é possível fazer isso de forma intempestiva, há outras alternativas que estão sendo estudadas. 

Em Campo Grande, a longo prazo, a instituição quer inverter os porcentuais de atendimento, aumento os índices no setor privado, de 10% para 60% e reduzido os da rede pública, de 90% para 40%.  

Porém, chega a ser criminoso usar de subterfúgio em que a população é a principal vítima, sendo atingida diretamente e de forma drástica. Espera-se que a diretoria do HU e o poder público formalizem o convênio com celeridade, em que está previsto repasse de R$ 700 mil do município e R$ 300 mil do Estado. Sendo a equação resolvida, que no futuro a população não seja usada novamente como moeda de troca nas negociações.

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