MATA ATLÂNTICA

Área de São Paulo e US$ 25 milhões
por ano salvariam anfíbios

21 JUN 2017 Por FOLHAPRESS 15h:30
Banhado ou lagoa temporária, ambiente conhecido como maternidade para maioria dos anfíbios da Mata Atlântica Banhado ou lagoa temporária, ambiente conhecido como maternidade para maioria dos anfíbios da Mata Atlântica

Proteger quase toda a diversidade de anfíbios (sapos, rãs, pererecas e cobras-cegas) da mata atlântica brasileira exigiria uma área um pouco maior que a do município de São Paulo e um investimento anual relativamente modesto, em torno de US$ 25 milhões.

A conta, feita por pesquisadores brasileiros e espanhóis, é a primeira a colocar na ponta do lápis tanto os aspectos biológicos únicos dos bichos quantos os fatores necessários para que a conservação deles funcione do ponto de vista econômico.

"Se a gente ficasse só na questão biológica, o trabalho não seria tão inovador", explica Felipe Siqueira Campos, goiano que faz doutorado no Departamento de Biologia Evolutiva da Universidade de Barcelona. "A sacada da pesquisa é levar em consideração os aspectos de custo-benefício também."

Campos e seus colegas do Brasil e da Espanha acabam de publicar a análise na revista especializada "Science Advances".

Os resultados obtidos pelo grupo de cientistas indicam que a área-chave para evitar o sumiço em massa dos anfíbios da mata atlântica abrange basicamente a serra do Mar de São Paulo e do Rio de Janeiro, bem como áreas do Espírito Santo e do sul da Bahia correspondentes ao chamado Corredor Central do bioma.

PRESTADORES DE SERVIÇOS

Pensar nos benefícios econômicos da preservação de sapos e companhia pode parecer estranho, mas o fato é que tais bichos são relevantes prestadores de serviços ambientais -sua presença e diversidade ajudam a manter funcionando aspectos do ambiente que são vitais também para os seres humanos.

Além do estereótipo do sapo comedor de moscas -ou seja, um bicho que ajuda no controle da população de insetos, inclusive os nocivos para a população-, os anfíbios ajudam a reciclar os nutrientes do solo, tornando-o mais fértil, e a eliminar detritos dos rios e outros corpos d'água, o que contribui para que a água se torne potável.

Essas e outras funções de espécies nativas motivaram a ideia de pagamento por serviços ambientais. Segundo essa lógica, produtores rurais que mantêm em bom estado as reservas de floresta em suas propriedades poderiam ser compensados financeiramente para que elas continuem assim, sem virar plantação ou pasto.

A ideia é um dos pilares da conta feita por Campos e seus colegas. Levando em consideração os valores que já são gastos em iniciativas-piloto de pagamento por serviços ambientais Brasil afora, eles estimaram uma remuneração anual de US$ 13 mil por quilômetro quadrado de área preservada.

O valor é cerca de um quarto do valor médio que um fazendeiro dessas regiões poderia obter com atividades agrícolas tradicionais. "Não estamos falando em restauração florestal nessas áreas, o que seria bem mais caro. A ideia é apenas manter o que já existe", explica o pesquisador brasileiro.

Além de considerar esse custo, a análise leva em conta ainda o número de espécies de anfíbios identificadas na mata atlântica (mais de 500, correspondendo a cerca de metade de todos os tipos de anfíbios encontrados no país), os diferentes grupos nos quais os bichos foram se dividindo ao longo de sua evolução e seus aspectos funcionais (coisas como o tamanho, o tipo de habitat, o sistema de reprodução etc.).

Ao cruzar todos esses dados com informações sobre o custo da terra e do pagamento dos serviços ambientais, foi possível estabelecer quais locais "cobririam" de forma mais ampla a diversidade de anfíbios da mata atlântica e ajudariam a protegê-los.

Estima-se que um terço dos anfíbios do planeta estejam ameaçados de extinção. Além da perda de habitat trazida pelo desmatamento, infecções por fungos e alterações climáticas estão entre os principais fatores que colocam esses animais em risco.

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