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Profissionais levam arte de contar história a vários espaços

20 MAR 2017 Por CASSIA MODENA 15h:55
Pedagoga e contadora faz parte da dupla Segredo e Prosa, que também conta com o músico Rafael Bendo Pedagoga e contadora faz parte da dupla Segredo e Prosa, que também conta com o músico Rafael Bendo

Transmitir histórias por meio da oralidade é um hábito ancestral, dos mais antigos do mundo. Basta alguém se propor a falar sobre algo que passou – entre fatos reais, fictícios ou uma mistura de ambos – que ele se manifesta. É possível, com entrega e uso de algumas técnicas, ir além do relato e levar quem escuta à imersão e a uma boa reflexão. Hoje, vale lembrar, é o Dia Internacional do Contador de Histórias. A data foi criada em 1991, com o intuito de reunir contadores e manter viva a prática milenar.

Os contadores de história profissionais sabem bem como fazer isso. Conhecem o caminho para cativar crianças e gente grande, instigando sua criatividade e deixando seus ouvidos mais atentos. Não é todo mundo que consegue. É necessário ler muito, estudar e praticar, segundo o professor Ciro Ferreira, contador de histórias há 20 anos.

Ele leva a sério o trabalho de parar escolas, movimentar bibliotecas e ocupar praças de Campo Grande para contá-las. “É um trabalho pouco reconhecido e nem sempre remunerado, mas que faço com muita paixão”, diz Ciro. Quando se põe à frente de um grupo de pessoas para narrar, procura articular cada palavra com encantamento e emoção. Somado a isso, as principais ferramentas para envolver a plateia são entonação, ritmo, gesticulação e domínio dos espaços do palco.

O conhecimento técnico em teatro épico o ajuda a ser um bom contador, mas não se mistura à contação em si. “Uma coisa é o ator, outra coisa é o contador de histórias. Para se contar uma história não é necessário se caracterizar como o ator. Ali é mais você e a história que você vai compartilhar por meio da sua voz”, diferencia.

O impacto de se ouvir uma boa história, por mais simples que ela seja, é grande. Ciro valoriza especialmente as memórias afetivas formadas em cima delas. Ele explica do que se trata. “Aquelas que a gente carrega desde a nossa infância, as que estão na nossa alma. Aquelas que vêm quando você para e pensa em alguma história da sua vida”.

RESGATE

Os causos e contos folclóricos são material rico para histórias. Eles são o substrato do trabalho realizado pela pedagoga Michelly Dominiq e pelo músico Rafael Bendo, que formam a dupla de contadores Prosa e Segredo, de Campo Grande. Histórias que transpassam gerações de famílias ribeirinhas, pantaneiras e indígenas de Mato Grosso do Sul e do Rio Grande do Norte – terra natal da professora – compõem o repertório dos dois.

Com a contação de histórias, levaram parte da cultura dos dois Estados para várias cidades do País em 2012, depois de serem contemplados pela bolsa de circulação literária da Fundação Nacional de Artes (Funarte). “O projeto nasceu da minha vontade de conhecer mais sobre a cultura sul-mato-grossense e fomos, eu e Rafael, captar histórias. Do Rio Grande do Norte eu já tinha referências, especialmente o Luís da Câmara Cascudo, referência no folclore brasileiro, mas fomos buscar mais. Reunimos ao final 50 histórias que pudemos espalhar, e que agora estão também em um livro”, descreve. 

A dupla começou a contar histórias em 2010 e nunca parou as atividades desde então. Na opinião de Michelly, os espaços para os contadores de histórias estão se abrindo cada vez mais em Mato Grosso do Sul. “Hoje nós temos locais como o Sesc, temos as escolas e centros de educação infantil, bibliotecas e livrarias sempre de portas abertas, sempre convidando. E até nos aniversários esses profissionais estão ressurgindo”, afirma.

Entretanto, falta cultivar a prática de contar histórias dentro de casa. “Muitos acreditam que, com a tecnologia, isso não é mais necessário. Dessa forma, estamos perdendo o hábito de contar e as próprias histórias estão sendo esquecidas”, alerta a pedagoga. E continua. “Quando ouvimos uma história de nossos avós e pais, estamos fortalecendo nossos laços afetivos com eles”.

PRECURSOR

Aqui no Estado, o ator e poeta douradense Emmanuel Marinho foi um dos primeiros a começar a contar histórias. Foi o gosto pela leitura e a produção escrita e teatral que o levaram a exercer também essa função há cerca de 20 anos. Ainda hoje é um “encantador de histórias”, como define, que costuma contar histórias sobre a terra e “as cidades que o habitam”.

Marinho formou muitos contadores no final da década de 90, por meio de oficinas realizadas com o apoio do projeto Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler). Visitou diversas cidades do País, sem se preocupar em ensinar técnicas, apenas procurando “revelar o contador de histórias que existe em cada um”, como ele mesmo prefere dizer. Ao longo desses anos, participou e se apresentou nos primeiros festivais de contação de histórias do Brasil. 

É recente a valorização do contador de histórias, segundo ele. “É a profissão mais antiga do mundo. Tem essa questão da oralidade, e nossa história foi escrita por relatos da oralidade. No entanto, o contador de histórias começou a ser valorizado somente há algumas décadas”.

O reconhecimento do ofício está no meio de um processo, ainda para Emmanuel, e passa por um momento de resgate na atualidade. “Tudo é tecnologia, é virtual, e nesse cenário, ter contato com a palavra, com histórias é urgente e necessário. É preciso mexer com o imaginário das pessoas, tocar a alma delas com uma boa história para que elas possam entrar em contato com elas mesmas”, finaliza.

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